
COOPEN E ONG LAÇO: o começo de uma parceria
A experiência vivida nos dois espaços educativos permitiu o começo de uma parceria em torno do projeto "árvores itinerantes" construído nas aulas de arte. Inicialmente, percebemos o contraste existente entre o ambiente natural e social do Parque das Mangabeiras, no Aglomerado da Serra, onde situa-se a ONG Laço e as construções ricas e verticalizadas do entorno da COOPEN, no Bairro Sion. Enquanto na COOPEN as crianças são estimuladas a preservar e a cuidar das árvores plantadas na escola e no quarteirão em volta dela em meio ao espaço altamente urbanizado, na ONG Laço, as crianças e os adultos que participam do projeto cuidam dos jardins e das Árvores no ambiente preservado do Parque. A idéia, então, foi unir as duas vivências distintas de relação com o meio ambiente num projeto que pudessem envolver arte, estética, ecologia e a questão social.
O objetivo do trabalho foi desalojar certezas, apresentar o lado avesso e criar estranhamento nas crianças e nos adultos que dele participaram. Partimos, num primeiro momento, da imagem da instalação "Jardim das coisas do sótão", de Sara Ramo, como uma lição de estranhamento. O jardim, num primeiro instante, parece uma situação caótica, onde nada está no lugar. Mas, na medida que fomos lendo a imagem, observamos que as coisas estavam no seu devido lugar, não eram tão estranhas. Assim, percebemos que aquilo que parece estranho, pode passar a ser conhecido, entendido e questionado.
Num segundo momento, outros artistas contemporâneos mobilizaram os objetivos do projeto: Bez Batti que trab alha com resíduos naturalmente produzidos pela natureza como os seixos; e Franz Krajberg que trabalha com resíduos artificialmente produzidos pela ação destruidora da tecnologia humana sobre a natureza. Como associar a observação dos trabalhos desses artistas contemporâneos com o nosso objetivo de desalojar certezas, estimular a preservação do meio ambiente e questionar injustiças sociais? Sara Ramo, Bez Batti e Franz Krajberg produzem arte para denunciar as maldades humanas contra a natureza e a sociedade.
Assim, nasceu o projeto "árvores itinerantes" que buscou aproximar as crianças ONG Laço e da COOPEN.
O projeto da ONG Laço parte da idéia de produzir algo que permita gerar e alimentar intercâmbios e trocas entre todos os participantes. Mas o que fazer na aula de arte que pudesse ser trocado com alguém? Pensamos na possibilidade de montar uma instalação a partir do contraste e da riqueza observada nos ambientes da ONG e da COOPEN. Mas como podemos trocar aquilo que fora instalado? Como criar uma instalação que pudesse ser itinerante?
Nos primeiros encontros que tivemos na oficina de arte discutimos com os participantes sobre o sentido e significado de uma instalação e de uma intervenção. O que as crianças da ONG Laço no Aglomerado da Serra têm de mais significativo que pode ser trocado? Apesar do contexto de exclusão social, as crianças da Serra vivem em um ambiente que, paradoxalmente, preserva a exuberância das árvores. Essa experiência de vida pode ser comunicada e trocada.
As árvores, muitas vezes, não são percebidas nem observadas. O ambiente natural, e também o ambiente social, é freqüentado sem estranhamento. Como estranhar aquilo que é aparentemente natural? Como valorizar a beleza daquela paisagem? Como questionar a enorme desigualdade social? Como transformar a beleza e o contraste do que é visto em uma obra de arte que possa ser apreciada por outras pessoas?
Em conversas com a coordenadora da ONG Laço, percebemos que todos ali se encontram dentro de um enlaçamento de trocas. Trocas essas que poderiam ser de pequenas mudas de plantas, desenhos, objetos, ações individuais e coletivas, etc. Pensamos, então, em desenvolver com os participantes das oficinas de arte um trabalho que permitisse aprofundar essa idéia do laço de trocas.
Como trocar com outras crianças esse ambiente maravilhosamente cheio de árvores? Como levar algumas daquelas árvores para lugares que não tinham árvores? Como fazer isso sem arrancá-las do seu lugar natural? As árvores a serem trocadas seriam arrancadas das terras férteis da imaginação. Imaginação que partiria do real. O real seria composto pelas árvores verdadeiras do Parque. Começamos o trabalho observando as árvores do Parque e os alunos fizeram um pequeno esboço no papel. Em seguida ampliaram esses esboços em papéis grandes. Os participantes da oficina de arte pintaram suas árvores posteriormente. Ficou combinado que estas árvores poderiam ser instaladas em diferentes lugares.
Com as crianças da COOPEN também estimulamos a observação das árvores plantadas na escola. A partir dessa observação, e inspiradas nos mesmos autores citados anteriormente, elas produziram desenhos dos troncos e dos galhos das árvores. Com as folhas velhas caídas no chão, imperceptíveis em um lugar de muitas árvores e impactantes em um espaço de muito cimento, as crianças tiraram a textura das folhas com a técnica da impressão natural. Em seguida, as árvores foram montadas.
Todo processo de criação foi mobilizado a partir da experiência vivida pelas crianças na observação e no cuidado do meio ambiente natural e social. O cuidado que cada criança deve ter com a sua criação artística, com o s eu desenho, pode e deve ser estendido para o cuidado com as pessoas e com o meio ambiente em que elas vivem. As trocas com os outros podem ser enriquecidas se aprendemos desde cedo a "saber cuidar" de nós mesmos, da natureza e da sociedade.
O primeiro encontro aconteceu na ONG Laço. As crianças da COOPEN visitaram as crianças da ONG Laço para se conhecerem. Organizamos neste dia uma atividade conjunta de desenho de observação. Depois as crianças fizeram um lanche coletivo, conversaram e visitaram a Escola Municipal Levindo Coelho onde as crianças da ONG estudam. Objetivo desse primeiro encontro foi "quebrar o gelo" e fortalecer a idéia de troca e de intercâmbio. Desenhos produzidos anteriormente foram trocados neste dia.
O segundo encontro aconteceu na COOPEN. Reunimos todas as árvores e fizemos brincadeiras como se estivéssemos no meio de um bosque cheio de árvores. Nesse dia, novos desenhos de observação fo ram feitos. Fizemos um lanche coletivo e contamos uma história do baú de memórias. O mais importante naquele momento foi a experiência do encontro e da troca. A relação estabelecida e as expectativas das crianças de continuarem com as trocas iniciada com o projeto "árvores itinerantes" é muito grande entre todos os envolvidos. Ficou evidente que a relação iniciada e estabelecida pode ir muito além de desenhos e de árvores. A riqueza e a variedade das experiências podem e devem ser trocadas. Brincadeiras, poesias, histórias e cartas podem alimentar o movimento que foi iniciado em torno de um projeto que tente unir arte, estética, meio ambiente e questão social.
Márcia Dárquia Nogueira da Silva
Professora de Arte
COOPEN e ONG Laço




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