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ensino da língua portuguesa através dos gêneros
textuais.
O ensino da Língua Portuguesa
utilizando os gêneros textuais como prática sócio
– história: contradições e acertos
da prática no ensino fundamental.
Adriane de Oliveira e Silva
INTRODUÇÃO
Tendo como objeto de estudo a prática pedagógica
do professor de língua portuguesa, este texto tem como
objetivo refletir sobre o trabalho desenvolvido por nós
, educadores do ensino fundamental da Cooperativa de Ensino
de Belo Horizonte.
Que habilidades de produção textual
têm sido desenvolvidas, para que o aluno faça
uso competente desse conhecimento, e quais são as concepções
dos professores que justificam suas ações?
O ensino das habilidades de como escrever textos,
parte do pressuposto de que, na escola , o aluno deverá
realizar atividades em que ele possa compreender a função
social da linguagem escrita , fazendo uso dela em situações
reais de interação.
Ao desenvolvermos a capacidade de uso da língua
materna, devemos considerar quatro aspectos: a fala, a escuta,
a leitura, e a produção escrita. É preciso,
portanto, oferecer aos alunos oportunidades de tornarem-se
usuários da língua portuguesa, ensinando na
escola o que devem saber para utilizar a língua em
sua prática social. Isto significa tratá-la
como instrumento de intervenção social, garantindo
acesso a uma rede infindável de interlocução.
Ao fazer uso da língua materna o ser humano se comunica,
tem acesso aos mais variados conhecimentos, expressa e defende
pontos de vista, registra suas visões de mundo . Ao
dizermos alguma coisa para alguém de uma determinada
forma, estamos produzindo linguagem-discurso. O discurso,
manifesta-se lingüisticamente por meio de textos orais
e escritos que são unidades de sentidos constituídos
por um conjunto de relações que se estabelecem
a partir da coesão e, sobretudo da coerência,
e que se fundamentam na possibilidade de exercer a comunicação.
No Brasil, falamos, cantamos, escrevemos, lemos,
em língua portuguesa. A língua nos remete a
experiências de vida, a fatos de infância , a
construção da nossa história , do nosso
passado , a possibilidade de nos expressarmos e nos conhecermos.
Marcuschi (1995) nos diz, que vivemos atualmente
numa sociedade em que a escrita se tornou um bem social indispensável.
Através dela nos informamos, solucionamos problemas,
nos comunicamos com o mundo; nessa perspectiva podemos dizer
que necessitamos da escrita para enfrentar o nosso dia a dia
. Cotidianamente a utilizamos em contextos variados, como
por exemplo nas ruas da cidade, nos locais de trabalho, nas
comunicações familiares, nas atividades intelectuais
, nas situações de lazer, nas escolas, nos supermercados
,etc. Em cada um desses contextos, a escrita é utilizada
de uma maneira específica e com objetivos próprios.
Essa variedade de usos da escrita definirá diferenças
nas formas de como se escrever determinado texto.
O reconhecimento da diversidade de usos de textos
com funções próprias, ,como lembra Nagamine
(1995), levou os estudiosos da linguagem à busca de
uma classificação dos diferentes gêneros
do discurso escrito.
Portanto, se a escola pretende levar em consideração
a dimensão sócio-histórica dos gêneros
textuais, torna-se necessário repensar a forma de trabalhar
a linguagem escrita. Atualmente parece ser consensual que
todo trabalho deve estar centrado no texto. Desde a década
de 80, muitas são as pesquisas e publicações
que enfocam o texto como única unidade lingüística
significativa. Entretanto, para muitos professores o texto
é utilizado apenas como fonte para exploração
das formas gramaticais ou apenas como pretexto para classificar
tipos de texto, de maneira anódina, sem intenção
comunicativa, desprovida de funcionalidade social. .Apesar
de ser fato a ampliação dos conceitos de linguagem
numa perspectiva da teoria da enunciação e do
discurso, ainda é freqüente a prática descontextualizada
de produção textual na sala de aula.
É comum ver os alunos escreverem textos
sem uma função comunicativa - social, como também
não compreenderem o destino dos seus textos, se distanciando
de questões como: para quem escrevo? para que escrevo?
como escrevo? como convencer sobre o que eu digo? como estruturar
as frases produzindo sentido, coerência ? que posições,
como autor, ocuparei no texto? apenas enfocarei informações
ou também me posicionarei diante delas?
Tendo em vista todas estas considerações,
uma abordagem que prioriza a interação não
pode utilizar o texto de forma indiferenciada, em que, qualquer
que seja o texto , vale o mesmo modo de aproximação.
Dessa maneira cabe à escola perceber que os textos
apenas deverão ser estudados e produzidos se for levado
em conta os contextos de sua produção, visando
diferentes situações de interlocução.
Gêneros textuais como práticas sociais
Como já pudemos analisar, os Parâmetros
Curriculares Nacionais, ( PCNs de Língua Portuguesa),
assumem uma concepção comunicativa/discursiva
de linguagem, não apenas por uma concepção
teórica de ensino da língua, mas, sobretudo,
por princípios sócio-políticos, como
a necessidade de se construir uma escola voltada para a formação
de cidadãos.
A formação de sujeitos que possam
exercer a sua competência discursiva, é um dos
“passaportes” para a cidadania e isto implica
a construção de uma prática de ensino
da língua, que não se restrinja a focar níveis
lexicais, oracionais ou mesmo estritamente textuais.
A opção explicitada nos PCNs, por
utilizar o texto como unidade básica de ensino, levando
em consideração o seu contexto de produção
e sendo resultado de um processo de operações
comunicativas, lingüísticas e sócio-cognitivas,
aponta reflexões que consideram o texto sob alguns
importantes aspectos:
1. A produção e a leitura textual são
atividades verbais. Os sujeitos ao produzirem textos orais
e ou escritos estão praticando ações,
atos de fala ou de escrita. Essas ações estão
inseridas em contextos situacionais, a serviço de certos
fins sociais.
2. Essa atividade verbal, praticada pelos usuários
da linguagem, é uma atividade consciente. O sujeito
que produz ou lê o texto, tem um papel ativo na escolha
ou análise dos elementos lingüísticos,
pragmáticos e ou sócio culturais.
3. Assim, o sujeito ao produzir ou ler um texto tem em mente
o que dizer ou o que se quis dizer, para quem dizer e o como
dizer sobre algo a alguém.
4. A produção ou leitura é uma atividade
interacional , em que a palavra é o território
comum do locutor e do interlocutor textual.
Nessa perspectiva comunicativa /discursiva de
linguagem, muito tem se discutido sobre a importância
de levar para a sala de aula diferentes textos que circulam
na sociedade.
Como já foi dito anteriormente, se não
efetivado nas práticas escolares, pelo menos tem sido
valorizado teoricamente entre os educadores, a necessidade
de trabalhar com uma ampla diversidade textual, na medida
que não existe um único tipo de texto que possa
“ensinar” a compreender e a produzir textos existentes
na sociedade.
Em função disso, diversas formas
de trabalhar tem sido desenvolvida nas escolas.
Algumas delas priorizam critérios estruturais
(narração, descrição, dissertação,
etc.) ou funcionais (textos informativos, textos literários,
utilitários, etc.).
Porém, baseados apenas nesses aspectos
estruturais e ou funcionais, essas propostas deixam de resgatar
aspectos da ordem da enunciação ou do discurso.
Portanto a eleição de gêneros
textuais, definido por Bakhtin, como sendo a cristalização
de formas de dizer sócio-historicamente constituídos
, tornou-se atualmente uma possível estratégia
de ensino, capaz de desenvolver a teoria de enunciação
da linguagem. Esses gêneros referem-se aos textos materializados
que encontramos em nossa vida diária e que apresentam
características sócio-comunicativas definidas
por conteúdos, propriedades funcionais, de estilos
e composições próprias .
Os gêneros que são inúmeros;
telefonema, carta, carta pessoal, romance, bilhete, notícia,
horóscopo, receita culinária, bula de remédio,
propaganda, lista de compra, cardápio de restaurante,
resenha, piada, poesia, crônica, outdoor, etc ; constituem-se
textos que cumprem funções em situações
comunicativas de uso.
Assim, para a noção de gênero
textual, predominam os critérios de ação
prática, circulação sócio-histórica,
funcionalidade, conteúdo temático, estilo e
composicionalidade.
Gêneros não são entidades
formais, mas sim entidades comunicativas. São formas
verbais de ação social relativamente estáveis,
materializados em textos situados em comunidades e em domínios
discursivos específicos.
E comum vermos hoje, práticas escolares
em que os gêneros textuais são tratados como
um sistema uniforme, formalmente constituído, distante
da funcionalidade comunicativa e desprovidos de intersubjetividade
do autor e do leitor.
Sabemos que ao desenvolvermos uma proposta de
ensino da língua portuguesa, através de gêneros
textuais, estamos levando em consideração as
condições sócio-históricas, pois
são elas que definirão os objetivos e a forma
de se escrever o texto. Estarão as escolas compreendendo
essas dimensões? Que interpretações estarão
fazendo os alunos dessas situações de aprendizagens?
A partir do aprofundamento de todas essas concepções
acima anunciadas, temos como intenção desenvolver
na Cooperativa de Ensino, uma ação pedagógica
problematizadora, em que três questões tornam-se
relevantes para o ensino da língua portuguesa :
- Que concepções de ensino da língua
portuguesa, justificam as práticas de trabalho dos
professores, no que se refere a como e para que se produz
textos na escola?
- Que capacidades de linguagem estarão sendo desenvolvidas
nos alunos?
- Em que essas práticas de ensino da língua
portuguesa, contribuem para a formação de cidadãos
críticos e lingüisticamente competentes?
Referências Bibliográficas:
- Barbosa, Jaqueline Peixoto. Texto, Do professor suposto
pelos PCNS ao professor real de Língua Portuguesa:
são os PCNS praticáveis?
- Bentes, Anna Cristina. Texto, Lingüística Textual
-Brandão ,Helena Nagamine. Texto, Txto, Gêneros
do Discurso e Ensino
- Bernard Schneuwly, Joaquim Dolz, Texto, Os Gêneros
Escolares, das práticas de linguagem aos objetos de
ensino.
- Marcuschi, L. A . Texto Oralidade e escrita
- Parâmetros nacionais curriculares- Língua
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