 |
Artigos
A
metodologia científica e o ensino fundamental: A Alquimia
e o Brasil Colônia.
Trabalhar as questões da pesquisa em
história, dentro da perspectiva da metodologia científica,
com alunos do ensino fundamental (5ª a 8ª séries),
tentando ir além da concepção tradicional
de pesquisa (aquela superficial, não-problematizada,
sem método, enciclopédica e com as quais os
alunos pouco interagem ou constroem conhecimento), é
uma tarefa árdua, mas não inglória. O
que se espera, no fundo, com esta prática, é
que os alunos, de forma bem gradual e num nível de
complexidade mais elementar em relação à
prática acadêmica, adquiram e amadureçam
noções comoconhecimento interrelacional,
relação entre forma e conteúdo, diversidade
e análise de fontes (fontes primárias e secundárias),
problematização, processo de criação
textual, autoria, dentre outras. Também se espera que
os alunos entrem em contato com discussões sobre questões
periféricas à prática da pesquisa como,
por exemplo, a utilidade e os perigos da internet.
Embora árdua, não é uma tarefa inglória
por que, ainda que de forma bem lenta e gradual, estas noções
vão se estabelecendo e construindo conhecimento no
cotidiano escolar. A título de exemplo, poderíamos
falar da alquimia e do Brasil colônia. Como não
sou especialista em História do Brasil Colônia,
não era conhecido por mim, o fato de que houve uma
prática alquimista neste período da História
do Brasil. Eu sabia do conhecimento alquímico na Antiguidade,
na Europa Medieval, mas nada sabia a respeito da introdução
desta prática no Brasil colônia. Dois alunos
percorreram esses vestígios em várias fontes
e fizeram uma pesquisa cujo título é “Brasil,
uma colônia alquímica”, revelando, então,
para mim, a história da alquimia no Brasil, além
da história da alquimia na sucessão das sociedades
desde a Antiguidade, passando pelo medieval , até a
atualidade.
Vindos para o Brasil juntamente com os jesuítas, alguns
alquimistas fizeram uso, em suas práticas, de alguns
produtos coloniais: o pau-brasil, o açúcar,
o ouro, as pedras preciosos e as drogas do sertão.
Tais matérias-primas, na medida em que eram descobertas,
atraiam para o Brasil vários alquimistas europeus.
Segundo as fontes utilizadas pelos alunos, os alquimistas
têm importante papel, desde a Antiguidade, nas descobertas
e invenções de várias substâncias
(por exemplo, no Brasil: extração da tinta vermelha
do pau-brasil, produção do açúcar
a partir da cana, catalogação e utilização
de várias das drogas do sertão), bem como na
descoberta da causa de certos males como a peste negra no
mundo medieval. Com este estudo, os alunos demonstraram habilidade
ao estabelecer relações entre assuntos que efetivamente
se inter-relacionam na História e criaram e satisfizeram
uma problematização mínima: Como a alquimia
foi um importante campo do conhecimento, estando na origem
da química moderna e como ela teve a sua importância,
tanto na Europa como no Brasil.
Esta é uma prova, entre outras, de que, realmente,
as noções e as práticas da metodologia
científica vão se ampliando lentamente nas concepções
dos alunos do ensino fundamental. Para que no futuro possamos
ver o amadurecimento da pesquisa histórica, é
necessário que ressaltemos e estimulemos ‘pequenos
grandes’ passos como este.
Daniel Barbosa dos Santos,
professor de História dos alunos de 5 a 8 série
do ensino fundamental.
|
 |