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Escola laica e epiritualidade ( Eduardo Sarquis )

Educação e valores em debate

Em reuniões de pais, temos estimulado o debate sobre valores. No Aurélio, a definição filosófica do termo é a seguinte: “Caráter do que, de modo relativo (ou para um só ou para alguns) ou de modo absoluto (para todos), é tido ou deve ser tido como objeto de estima ou de desejo”. Reconhecemos que nossa sociedade vem se modificando em ritmo bastante acelerado, impondo novos estilos de vida e disseminando informações que chegam de várias partes do mundo a todo momento. O movimento contínuo que marca de incertezas o futuro e o encontro com modos de viver e pensar de outras sociedades estimulam uma revisão de nossos valores e um esforço para definir aquilo que deve permanecer em meio a essa turbulência. Valores estruturam e significam a nossa vida, além de contribuírem para a determinação dos objetivos da educação que devemos oferecer às gerações em formação. Daí a importância de um debate coletivo sobre o tema.

Nas reuniões de pais de alunos de quinta a oitava séries, nossas discussões sobre valores recaíram sobre situações bastante práticas que ocorrem no dia-a-dia da escola. O texto que apresentamos adiante procura um enfoque mais reflexivo sobre um tema intimamente relacionado aos valores, qual seja, a tensão entre uma educação laica e as necessidades de uma abordagem de aspectos da espiritualidade humana, mesmo que desvinculada de qualquer credo religioso. Com o texto, procuramos explicitar nosso ponto de vista, ao mesmo tempo que estamos abrindo o debate com a intenção de que a comunidade escolar participe ativamente da definição dos princípios que norteiam a educação praticada na Coopen-BH.

Escola laica e espiritualidade
                                                                                                           

                                                                                                                 Eduardo Sarquis Soares

A laicização da escola nos países ocidentais foi uma conquista da sociedade que acompanhou a separação oficial entre a Igreja e o Estado. Há razões históricas para que esse movimento seja considerado uma conquista. Podemos destacar, especialmente, a necessidade de que todos os credos sejam respeitados, e não apenas aquele que seria considerado “oficial”, além da necessidade do desenvolvimento da ciência de maneira independente dos dogmas religiosos.

A ciência livre da censura das religiões, pelo menos teoricamente, segue um caminho pautado pela constante tentativa de romper com os mitos em favor de uma visão cada vez mais racional do mundo. Em um momento da história, especialmente em meados do século XIX, a confiança no projeto da ciência clássica, cuja física newtoniana foi tomada como alicerce, chegou ao ápice. Acreditava-se que dispúnhamos de um aparato de explicações para os fenômenos naturais no qual podíamos confiar plenamente. Nesse contexto, surgiram posições filosóficas que expressavam essa confiança exacerbada na vitória da razão sobre toda e qualquer metafísica. Feuerbach (1804 – 1872), por exemplo, anunciou que “Deus está morto” e Nietzche (1844 – 1900) confirmou que matamos Deus pela razão, a filosofia e a ciência.

No início do século XX, a ciência clássica entrou em uma crise profunda, devido a uma série de experimentos que demonstravam que nem tudo podia ser explicado pela física que estava disponível. Durante esse século, assistimos a um formidável avanço das idéias científicas como a criação da física relativística e da mecânica quântica. Do lado filosófico, demonstrou-se que as concepções de Newton se embasavam em uma crença específica acerca da natureza do tempo e do espaço, ou seja, em uma metafísica. Outros campos científicos também cresceram tremendamente como, por exemplo, a biologia, com a ampliação das idéias evolucionistas de Darwin (1809 – 1882) e a química, com as modernas pesquisas relativas aos sistemas longe do equilíbrio. Enfim, a ciência contemporânea encontra-se bastante avançada e se associa a um desenvolvimento tecnológico sem precedentes e que afeta nossas vidas diariamente.

Se, por um lado, sabemos que todo projeto científico está alicerçado em verdades temporariamente – e apenas temporariamente – estabelecidas, também é certo que a ciência continua prescindindo de qualquer referência a uma realidade transcendental.

Essa “blindagem” do conhecimento racional contra as idéias metafísicas já havia sido postulada por Kant (1724 – 1804), que defendia a posição de que a filosofia deve se ater à discussão de conceitos que correspondem a algo que os sentidos possam perceber. Aqui podemos reconhecer uma questão radical: será o conhecimento científico, apesar de suas limitações, o único ao qual devemos devotar credibilidade?

Carl Sagan (1934 – 1996), astrônomo e divulgador da ciência, pode ser indicado como um dos que assumiram uma confiança plena e absoluta no conhecimento científico. Ele argumentava que nenhuma outra atividade humana tem por norma colocar em dúvida seus próprios fundamentos. Com isso, queria dizer que a ciência está constantemente checando suas descobertas e afirmativas e não reluta em abandonar qualquer idéia que se mostre vulnerável aos ataques teóricos e práticos. Indo mais além, Carl Sagan pensava que, por uma questão de coerência, um pensamento radical como o seu não podia admitir como verdadeira qualquer explicação do mundo fora da esfera científica. No limite dessa posição, ele assumia um inevitável ateísmo.

Há cientistas que não comungam com as idéias de Sagan. Alguns tentam demonstrar que a ciência e a religiosidade não se excluem, mas se complementam. Contudo, esses cientistas sabem que seus trabalhos acadêmicos não terão aceitação na comunidade de profissionais se estiverem baseados em idéias que denunciam imediatamente uma tendência a qualquer metafísica. Eles divulgam suas reflexões apenas para o público leigo ou para colegas que sabem que eles não estão falando de ciência. Não existe sequer um corpo de pesquisadores, organizado em uma academia, praticando a ciência normal e pesquisando coisas como alma, corpo astral, vida após a morte, iluminação, mundo supra sensível ou assuntos parecidos.

Evidentemente, ninguém está obrigado a apostar todas suas fichas no conhecimento científico. Existem boas razões para acreditarmos que a ciência não detém a única forma de conhecimento da realidade. Contudo, crer em um conhecimento confiável para além do que está estabelecido equivale a admitir que a realidade esconde algo que a razão científica ainda não alcançou, ou que o ser humano tem uma capacidade de percepção que extrapola as informações que nos chegam dos órgãos dos sentidos.

Jung, por exemplo, contrapunha-se ferrenhamente à submissão a esse tipo de racionalidade. Diferentemente de Freud, ele considerava que não deveríamos tentar trazer à consciência aquilo que pertence ao subconsciente. Pelo contrário, acreditava que deveríamos reverenciar todos os rituais que a humanidade vem praticando desde sempre e tentar aprender o que essas práticas nos têm a ensinar. Para Jung, o abandono dos ritos religiosos em nome da racionalidade científica constituiria uma grande fonte de problemas de ordem psíquica. David Tacey, autor de How to Read Jung aposta que, se o século XX foi o século de Freud, o século XXI será o século de Jung.

  Vemo-nos, portanto, diante de posições antagônicas na forma como tratar a espiritualidade e essa questão nos desafia quando falamos de educação. O que devemos oferecer às crianças e adolescentes hoje? O que eles nos demandam? O que deve ser escolha de cada família e qual a linha que uma escola como a Coopen-BH deve adotar? Convidamos vocês ao debate porque essas definições deve contar com a participação de todos.