 |
Artigos
SERRA
DO ESPINHAÇO: HISTÓRIA DO BRASIL E PRESERVAÇÃO
DE UM ECOSSISTEMA.
VIAGEM AO PARQUE ESTADUAL DE SÃO GONÇALO
DO RIO PRETO, A CODISBURGO, CIDADE NATAL DE GUIMARÃES
ROSA E A CIDADE HISTÓRICA DE DIAMANTINA, CONFEREM AOS
ALUNOS DA COOPEN, A OPORTUNIDADE DE “RE- CONHECEREM”
DE PERTO O ECOSSISTEMA DA SERRA DO ESPINHAÇO, SUAS
PAISAGENS, RIQUEZAS, E PROBLEMAS ENFRENTADOS, E PROPORCIONA
A APRECIAÇÃO DA CULTURA E DA ARTE DE MINAS GERAIS.
Um dos projetos de estudo, desenvolvidos pelos alunos
da Cooperativa de Ensino de Belo Horizonte – COOPEN-BH,
durante o primeiro trimestre de 2006, teve como intenção
responder questões em torno da vida na Serra do Espinhaço.
Discussões sobre a paisagem do sertão, formação
do relevo, degradação do cerrado, estratégias
de sobrevivência de animais e plantas, necessidades
e importância de criação de Reservas Ambientais,
etc , se fizeram presentes e viagens ao Parque Ecológico
de São Gonçalo do Rio Preto, Diamantina e Codisburgo,
foram realizadas pelos alunos da 5 a 8 series e educadores
da escola.
Já a alguns anos, através de variados projetos
de pesquisa, a Coopen tem buscado desenvolver um trabalho
com seus alunos sobre a relação do homem com
o seu meio ambiente. O Brasil, além de ser um dos países
maiores do mundo em extensão, possui inúmeros
recursos naturais de fundamental importância para todo
o planeta: desde ecossistemas como florestas tropicais, pantanal,
mangues, restingas e o cerrado, até uma grande parte
da água doce disponível para o consumo humano.
Dono de uma das maiores biodiversidades do mundo, tem também
uma riqueza cultural vinda da interação entre
diversos grupos étnicos, o que muito contribui para
a formação do nosso povo. Com o propósito
de ampliar estas discussões na escola, a equipe de
educadores e seus alunos se propuseram a desenvolver um estudo
sobre um ecossistema local: seu funcionamento, sua história,
seus recursos e problemas enfrentados.
Assim, de maneiras múltiplas e com olhares diversos,
traçaram seus objetivos de estudo buscando as contribuições
das variadas áreas do conhecimento. Na história,
os alunos se debruçaram sobre o processo de urbanização
de Minas Gerais, desde a colonização do Brasil,
até o declínio da extração do
ouro e diamantes. Os movimentos sociais de resistência
ao império português, como a Guerra dos Emboabas,
a Revolta de Vila Rica , e a Inconfidência Mineira,
foram discutidos a luz de documentos, obras de arte e filmes
sobre a época, a exemplo de Vinho de Rosas. A busca
da construção de conceitos sobre Cidades e Patrimônios
Históricos, foram desenvolvidos tendo Chica da Silva
e a arquitetura barroca como elementos que compõem
este cenário.
Já na área do conhecimento da geografia , os
alunos iniciaram suas pesquisas tendo como metodologia aprender
a observar uma paisagem do cotidiano, buscando interpretar
a ação humana sobre ela. A partir de um conjunto
de intervenções que ampliavam o olhar sobre
algo que se vê, os alunos iniciaram um trabalho de análise
da paisagem da Serra do Espinhaço, do relevo e da vegetação
do cerrado. A construção dessa imagem do sertão,
ampliou a curiosidade sobre este ecossistema. Os recursos
minerais existentes na região da Serra do Espinhaço,
sua origem e utilização, foram estudados e serão
apresentados em uma exposição de minerais, em
que os visitantes serão convidados a selecionar as
pedras quanto à sua formação e existência
na região.
A fauna e a flora, muitas dessas espécies consideradas
endêmicas, foram analisadas pelos alunos durante as
aulas de ciências, no sentido de compreender quais as
estratégias de sobrevivência têm sido desenvolvidas
para se adaptarem a um meio devastado pela ação
do homem. Para os alunos, a tomada de consciência da
necessidade de criação de reservas e parques
ecológicos, tornaram-se presentes , visto que puderam
compreender que a história da agressão ao meio
ambiente não teve início nas últimas
décadas e sim desde os primeiros anos da colonização
portuguesa , visto que grande parte das árvores do
pau-brasil desapareceram em função do tráfico
para a Europa , amplas áreas foram devastadas para
o cultivo da cana de açúcar e a exemplo, num
passado ainda recente, o rio das Pedras era dilapidado pela
extração de diamantes.
A partir dos variados eixos de estudo desenvolvidos, a equipe
da Coopen avaliou que seria também apropriado buscar
o olhar literário sobre o sertão, traduzido
pelo escritor João Guimarães Rosa.. Apresentar
a linguagem de Guimarães aos alunos do Ensino Fundamental,
possibilitaria o contato dos mesmos com uma riqueza lingüística,
fruto da combinação entre o rigor etimológico
e a tradição oral, revelado no encontro entre
a beleza e preciosidade das culturas erudita e popular.
Nessa perspectiva, os educadores da escola tinham como intenção
que os jovens leitores, pudessem desde cedo apreciar e observar
essa nova linguagem , que nasce da observação
da vida sertaneja e se transforma na arte de dizer sobre o
cotidiano, através de uma linguagem própria.
O mito de ser um texto complexo e incompreensível,
impróprio aos jovens, foi quebrado pelos próprios
alunos que ao apreciarem os contos de Guimarães, expressavam
seus entendimentos, criavam imagens, se emocionavam e pediam
bis.... mais e mais leituras. Era justamente a novidade das
palavras ou a “inexistência”das mesmas,
a poesia do entre-texto ou a cadência sonora dos verbetes,
que deixaram os alunos tão encantados e dispostos a
buscar significados para tantas expressões nunca antes
ouvidas.
Para apresentar à comunidade da Coopen, a beleza dos
textos de Guimarães, os educadores organizaram no dia
31 de maio, uma ‘ Noite Roseana ”, em que os alunos
além de apresentarem contos do livro “Primeiras
Estórias”, célebres citações
do autor e verbetes com seus significados, também fizeram
exposições de desenhos que ilustravam alguns
contos, tapetes de sementes que serviram de suporte para trechos
das obras e uma colcha de retalho que retrata imagens e textos
variados ...
O evento teve a presença da contadora de histórias
, Elisa Almeida, especialista na obra de Rosa, e de três
primas de Guimarães, fundadoras da Academia familiar
de Letras, que relataram casos da infância do escritor,
seu amor por Codisburgo e sua simplicidade para com a vida.
Na noite, os convidados puderam degustar as iguarias típicas
do sertão e o famoso licor de Pequi, tão apreciado
pelos mineiros.
A viagem ao Parque Estadual de São Gonçalo do
Rio Preto, a cidade histórica de Diamantina e Codisburgo,
cidade natal de Guimarães Rosa, possibilitou aos alunos
da Coopen, a ampliação dos conhecimentos desenvolvidos,resgatando
nos alunos a capacidade de reconhecer em loco, suas aprendizagens
anteriormente conquistadas. Todo este trabalho, além
de possibilitar uma formação dos alunos sobre
os problemas ambientais do Brasil, busca reconhece-los como
sujeitos capazes de construir relações entre
o passado e o presente, analisando a ação do
ser humano na sociedade, suas conquistas, evoluções
e retrocessos, e principalmente possibilita que os alunos
ocupem o lugar de pesquisadores de suas próprias realidades
sócio- culturais, assim como apreciadores da riqueza
cultural, natural e literária brasileira.
Adriane de Oliveira e Silva,
coordenadora pedagógica da Cooperativa de Ensino
de Belo Horizonte.
|
 |