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Sala de Aula: Relações de Ensino e Participação     

    Consta que os índios mexicanos tinham um ritual para definir a coragem e a inocência do guerreiro. Consistia em obrigar o sujeito a andar de costas, sem olhar para trás, sem vacilar, enquanto outros guerreiros lhe iam atirando flechas. Don Juan usou essa história metaforicamente para dizer a Carlos Castañeda que, quando um sujeito, pelo seu desenvolvimento, se eleva ao grau de guerreiro, deve tomar a morte por companhia e estar ciente de que, constantemente, estará assediado pelas forças que tentarão demovê-lo de seus objetivos.
     De uma certa forma, sinto que nossa caminhada na Coopen se assemelha à de um guerreiro. A semelhança encontra-se no fato de que estamos constantemente ameaçados de extinção, o que nos obriga a ser diligentes em cada passo.
Atualmente, nosso maior desafio é transformar a dinâmica que envolve os grupos de alunos que resistem a partiparem de forma participativa da nossa proposta de trabalho. Precisamos ser cuidadosos e tentar enxergar o que vem ocorrendo com isenção, considerando estas palavras de Confúcio: “Atacar uma questão pelo lado errado nada mais pode senão causar danos”. Assim como esse mestre chinês não se considerava mais que um estudioso, verifico que também não tenho discernimento suficiente para definir ações a serem tomadas de maneira inequívoca. Precisamos aprender juntos o que fazer. Gostaria de expor aqui o que venho pensando e convidá-los a se posicionarem. Espero que, assim, que cada um contribua para o crescimento do grupo.
     Inicio pensando na pessoa que fui e naquilo que avalio como significativo para que eu fosse me transformando. Na adolescência, apesar de ser aluno aplicado, emocionalmente levava uma vida bastante conturbada. Vez por outra, minhas atitudes eram de tal ordem que até hoje tenho vergonha de falar delas fora de um círculo de amigos muito próximos. O que mais me atormentava era uma dificuldade imensa de acreditar em mim mesmo e, junto com isso, de aceitar minhas limitações sem considerar que eu era o último dos seres humanos. Fernando Pessoa tem uma poesia que diz desse sentimento de maneira magistral. Acho que a religião de família marcou-me com essa herança terrível.
     Essa percepção interna começou a se transformar quando alguns amigos da época de faculdade demonstraram que levavam a sério minhas opiniões. Lembro-me de um deles, em especial, que veio discutir o que lera de um texto de Shopenhauer e queria minha opinião sobre o assunto em pauta. Fiquei perplexo pelo fato de ele considerar que eu tinha algo a dizer, que minha opinião importava. Outros amigos vieram desde então e, em conjunto, abriram horizontes que eu nem imaginava que existiam. Sou tremendamente grato aos amigos e à vida por esses encontros. Incluo vocês entre essas pessoas porque tenho sua confiança da mesma forma que confio em vocês.
     Estou narrando essa experiência para justificar por que considero que as pessoas crescem quando são acolhidas. Mesmo para discordar, mesmo para corrigir, é preciso acolher em primeiro lugar. Um ser humano comum, adolescente ou adulto, tende a se defender diante de qualquer acusação, recusando-se a refletir sobre o que o outro tenta lhe dizer. Por isso, a forma de dizer tem de ser precisa, principalmente quando as palavras provêm de quem se coloca no lugar de educador.
     Com isso não quero dizer que devemos estar sempre serenos em qualquer situação como se tivéssemos sangue de barata. Talvez esse seja até um ideal a ser perseguido, mas temos o direito à raiva, ao desânimo, às irritações profundas que nos assolam quando nos deparamos com essas hordas de indivíduos deformados pelas condições sociais que nos circundam. Claro que nosso papel de educadores deve prevalecer no final, valha-nos Deus.
     Voltando ao nosso desafio concreto. Acho que as regras para a turma de sexta série, ou para qualquer outra, devem ser as que adotamos e devem ser levadas a sério. Os alunos  dizendo de Daniel é que ele tem se portado como um professor exigente, em vez de “dar mais uma oportunidade” aos que escolhem atrapalhar as aulas. Atuando como professor, tendo a ser mais tolerante do que deveria. Nas aulas que ministrei no lugar do Alex, por exemplo, seguramente teria de mandar uns dois ou três para fora se mirasse o exemplo de nosso caro professor de história. Carla sabe avaliar isso porque estava lá como testemunha. Já a Valéria, quando esteve com a turma, deu neles uma bronca tão grande que valeu por alguns dias. A força da ação da diretora fez os alunos se portarem com mais atenção, menos ruído, e eles mesmos verificaram que isso era positivo.
     Porém não acredito que, se mantivermos um tom acusatório durante as assembléias os alunos vão refletir sobre seus posicionamentos e mudar de atitude. Não é preciso acusá-los mais, eles sabem perfeitamente que não estão se comportando de maneira adequada. Minha aposta é: se os deixarmos falar livremente nas assembléias e se dermos espaço para suas queixas, eles vão se comprometendo com propostas de solução que demandam empenho e seriedade.  É claro que o caminho mais fácil para eles é acusar um professor ou outro. Todos temos nossas dificuldades e os adolescentes são críticos exímios. Mas, se essas acusações compõem um jogo de empurra, devolver acusações para a turma só serve para reforçar o jogo: “vamos ver quem consegue argumentar melhor?”. Vocês podem dizer, e com razão, que os alunos pecam pela arrogância, que reforço essa arrogância quando escuto o que eles têm a dizer e procuro transformar as queixas em propostas de solução. Mas o que eu tento é mudar de lugar. Meu jogo é: “tudo bem, as queixas serão consideradas; só que todos vamos estar comprometidos com a solução apontada”.
     Essa forma de pensar justifica o rigor na cobrança. Se você acusa alguém e recebe em troca outra acusação, vai pensar no próximo ataque. No entanto, se sua acusação é acolhida e transformada em proposta de ação, como você agora se posiciona?
Não há como impor meu modo de pensar, até porque não temos garantia alguma de que esse é o melhor caminho. Mas é uma tentativa. Penso que, até por uma questão de sobrevivência da escola, temos de manter vigilância e saber valorizar o que a turma amadurecer. Pelas assembléias de que participei, constato que houve crescimento. Não estou dizendo que eles estão menos defensivos, o que equivaleria a constatar menos acusações e mais reconhecimento do próprio erro. Digo que o comportamento durante as assembléias melhorou consideravelmente. Já são capazes de ouvir mais e segurar um pouco mais a ansiedade na hora em que querem se manifestar. Isso não é pouca coisa.
Talvez, na arte de educar, devamos incentivar e aplaudir ações que demonstram crescimento, mais que denunciar e expor os erros dos educandos. Para encerrar, deixo um abraço e volto a Confúcio: “Merece ser um professor o homem que descobre o novo ao refrescar na sua mente aquilo que ele já conhece”.


Os Anacletos, livro 2, estrofe 16

 

Eduardo Sarquis Soares                                                         
Coordenador Pedagógico do Fundamental II