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Sementes de solidariedade
Vivemos na Coopen, durante todo este último ano, um longo processo de elaboração e execução de um projeto em torno do tema da Economia Solidária. A filosofia foi chamada a participar deste debate em várias frentes de trabalho. Numa delas, o grupo Uirapuru conduziu uma oficina com os alunos de quinta a oitava série com o objetivo de pensar o mundo em que vivemos hoje e o que podemos fazer para torná-lo melhor.
Para quem almeja viver numa sociedade justa e igualitária, a necessidade de se lutar por uma economia solidária não deve ser motivo de espanto, na medida em que vivemos em um mundo não solidário no qual a economia freqüentemente é tida como um puro e simples sinônimo de competição. Assim, percorremos com os alunos um longo caminho para que pudéssemos entender o que configura nossa sociedade como não solidária. Tivemos que compreender melhor a lógica das trocas econômicas que regem nossas vidas. Vivemos sob o domínio do capitalismo em um país detentor de um dos piores índices de distribuição de renda do mundo. Vivemos sob o domínio da publicidade que procura não nos permitir a clara compreensão do que nos cerca, além de tentar incutir em nós uma série de desejos supérfluos, insustentáveis. E sob uma ideologia que nos faz crer que todos têm iguais oportunidades diante do mercado. Ah, sim, vivemos o império do Mercado.
O mercado rege nossas vidas ao determinar como devemos ser para que nos aceite; se ele não nos aceita, estamos fadados ao fracasso da desocupação. Rege também nosso modo de vida ao se oferecer como fonte inesgotável para o consumo. Mercado de trabalho, mas também mercado de consumo. Ele nos absorve como força de trabalho, depois nos oferece o produto a ser consumido: quem foi aceito por ele, agora retorna como consumidor; quem não foi aceito, vive à margem, sem poder de compra, sem direito à subsistência; duplamente excluído, portanto. Mas será que nossa existência se reduz a trabalhar e consumir?
Todavia, o mundo contemporâneo chegou a um ponto de estrangulamento em que os limites do sistema estão se tornando cada vez mais expostos: milhões de pessoas vivem em guerra ou em situação de miséria absoluta, a violência e o caos urbano proliferam, a natureza corre perigo. E é neste contexto que pequenos movimentos irrompem em diversos pontos do planeta, afirmando a idéia de que há, sim, alternativa ao modelo hegemônico. É possível construir um modo de vida em que a troca seja mais importante do que o lucro, em que a compartilha sobrepuje a posse e em que todos possam vencer juntos, destruindo a lógica do jogo de soma zero na qual, para que um ganhe, é necessário que outro perca.
Entendemos que a Coopen, por sua estrutura democrática e por seu interesse na formação humana de cada um de seus alunos, caminha junto com todos esses pequenos movimentos que podem ser vistos como as sementes de um futuro solidário; movimentos que se constituem por grupos dispostos a agregar a si o maior número possível de pessoas, de todos os tipos, a despeito das dificuldades que se colocam. Trata-se de um caminho repleto de desafios, mas também de esperança. Que outras mãos juntem-se às nossas nesta semeadura!
Marília Murta de Almeida
Flavio Fontenelle Loque
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